Depois de uma muito prolongada ausência por motivos académicos, volto com um livro que me marcou bastante e que hoje mesmo acabei de ler. De um autor português que nunca tinha lido e que pouco conhecia.
O Bom Inverno
João Tordo
(Dom Quixote)

A escrita é fluida, mas trabalhada, e prende-nos por si só nas primeiras páginas, enquanto vamos tentando compreender uma lógica muito própria, intrínseca ao próprio livro e à própria história, que ora se agarra, ora se perde.
Um escritor falhado e frustrado que foca na sua perna todas as limitações do seu génio criador. E por isso coxeia. Por isso passa pela vida, apenas passando, inerte e deprimido fecha-se em casa, alheado do mundo e dos outros, agarrado à sua bengala.
Até que recebe uma proposta curiosa e parte para a casa de Don Metzger, um importante produtor de cinema. Lá irão juntar-se actores, escritores e muitos outros, movidos por diferentes interesses ou dilemas interiores.
Quando o proprietário da casa surge morto de forma misteriosa e o seu fiel amigo Bosco inicia uma verdadeira luta para descobrir o assassino, o grupo de convidados vai sentir-se cercado numa caça ao homem sem fim. E tudo é válido: cada um está disposto a tudo para tentar fugir.
Empolgante até ao final, com grandes reflexões existencialistas!
"A tua perna é o teu fracasso, é a prova da tua finitude. (...) Todos a carregamos connosco de uma maneira ou de outra, porque estamos agora e para sempre predestinados ao fracasso. Porém, vais descobrir, para tua grande frustração, que lá dentro são todos imortais. Uma sala cheia de superhomens e supermulheres, perfeitos na sua imperfeição, completamente esquecidos de que são, como todos nós, repasto para cemitérios. Comida para os vermes."
No final resta a vontade de ler outras obras. E uma curiosidade: João Tordo é um dos finalistas do Prémio Literário Europeu, com este mesmo livro. O vencedor será conhecido a 5 de Dezembro.